Capítulo 1
[PT]
"O nosso carácter é o resultado da nossa conduta"
◼️Nada é mais valioso do que a nossa saúde física e mental, e não digo isto de forma leve.
Ora, isso não equivale a usar esse facto como justificação para não ir trabalhar, para tirar férias forçadas porque estás chateado com o teu chefe ou para viajar e viver tudo de forma tão rápida que nos esquecemos de ser responsáveis ao fim do dia. Nos tempos que correm hoje, parece que se banalizou a noção de falta de senso comum em certos pontos… Com isto não quero dizer que não haja realmente situações que precisem de ação imediata e de uma pausa mais prolongada. Mas, a não ser que seja esse o caso, aconselho a que não tomem essa atitude. Na realidade o que resulta de uma prática dessas sem pensar em como se irá espalhar e afectar os outros, é que acabamos por tirar a oportunidade a quem realmente precisa de atenção e cuidados especiais, de ter acesso a eles.
Aos meus olhos, contribuir para algo assim é practicamente um crime.
Algumas pessoas apenas conseguem entender uma certa complexidade de sentimentos após os experienciarem, mas em alguns cenários, é preferível que não os experienciem de todo. Por exemplo, no caso de uma doença ou de um vício. Porém, conseguirmos “compreender” quão intensamente essas experiências podem marcar alguém (e como há razões próprias para a pessoa se sentir assim), demonstra empatia – uma das qualidades mais únicas e bonitas que nós, seres humanos, temos por sermos racionais. Tais qualidades deviam ser celebradas e usadas para melhorar a conexão com as pessoas, ao invés de escrutinar e deteriorar por termos noções distintas devido ao meio ou ao conhecimento disponível. Há coisas que vão para além do conhecimento, são simplesmente sentidas e já nascemos com essa habilidade, apenas falta pô-la em prática.
Tudo na vida é fruto de trabalho árduo. Tanto quando queremos alcançar algo como quando não, porque tudo acaba por ter consequências. Há um preço a pagar pelo sucesso tal como há pelo insucesso e/ou conformidade. É como se fosse um entroncamento, e dependendo do caminho escolhido, as repercussões esperam-nos do outro lado. Daí a importância de fazermos algo que realmente gostamos como profissão. É inevitável que temos que trabalhar para pagar contas, para sobreviver, para termos qualidade de vida, etc… Ao escolhermos uma área que não nos interessa, basicamente estamos a garantir a nossa infelicidade desde o ponto de partida. Pergunto-me, porquê passar por isso?
Sei que tenho a sorte de ter pais que me permitiram escolher qual o percurso que queria seguir, por mais imprevisível e efémero que fosse. E sempre partilharam comigo as suas reservas ao longo do tempo. Contudo, ao verem a minha determinação para tentar seguir a minha vocação deram-me uma chance para aprender. Consequentemente, sempre garantiram que eu me sentia apoiada ao longe, e no caso de uma emergência ou de não correr bem, tinha a opção de voltar para casa.
Estando numa situação confortável, iria aproveitar-me dessa “rede de segurança” e ser descuidada ou preocupar-me menos com o desenlace, sabendo que podia regressar a qualquer momento?
Não. O oposto. Escolhi ser ainda mais responsável com as minhas atitudes sabendo que tinham depositado confiança em mim para decidir algo tão importante, e só me restava provar que tinha sido a decisão certa.
A confiança é uma particularidade que é formada numa relação quando alguém mostra consistência com as suas ações e palavras. Não podemos estar à espera que confiem em nós se dissermos uma coisa e fizermos outra. E, contrariamente à crença geral, demora o seu tempo a florescer. Não é em poucos meses que mostramos coerência, mas todos os pequenos gestos pintam a imagem final. É um trabalho a dois.
E é verdade que há pessoas que não merecem confiança da nossa parte ou palavras gentis. Nem sempre conseguimos prever com quem realmente estamos a lidar. Pessoalmente já estive em algumas situações onde me apercebi, em atraso, que a pessoa não era merecedora da minha consideração. Mas será esse apercebimento uma razão forte o suficiente para alguém não agir conforme os seus valores? Não. Nada neste mundo deve-se sobrepor ao nosso auto-julgamento e imagem pessoal, pois o custo disso é a nossa integridade.
Eu cresci em África. Sei em primeira-mão o que é ter falhas de electricidade diárias e rezar para que o gerador coopere nessas alturas (nem sempre era o caso), e o que é ter que aquecer água numa panela para poder tomar banho de água quente. Aliás, a minha queimadura não me permite esquecer esses tempos. Tendo tido contacto desde cedo com outras realidades ajudou-me a desenvolver uma compreensão alargada no que toca às diferentes culturas que nos rodeiam. E há um traço de personalidade que aparenta ser universal – o respeito. Se bem que está mais presente em alguns sítios do que outros, todos o aplicam até certa medida.
O respeito e a confiança interligam-se. Ganhamos respeito por quem mostra ser digno de confiança, de forma gradual, o que reflete indiretamente o nosso carácter e competência para escolher os amigos. Amizades sem um elo de confiança não são nada mais do que trocas de informação e tempo. Quando a confiança é quebrada, raramente volta ao lugar após um pedido de desculpas.
A forma como nos comportamos é das poucas coisas sobre as quais temos controlo. Não é possível controlar o que os outros pensam de nós, muito menos o que decidem fazer com a informação que partilhamos, mas como decidimos responder, se for caso para isso, está totalmente nas nossas mãos. Tentar mudar uma imagem que já está estabelecida na cabeça de alguém é uma batalha perdida que só traz dores-de-cabeça e stress desnecessário. Não conheço ninguém que se mantenha fiel ao seu código de conduta e não consiga dormir em paz.
Na minha opinião, não temos nada a provar a não ser a nós próprios. Para bom entendedor, meia palavra basta. O tempo revela tudo, é só sermos pacientes. Nunca conseguimos saber ao certo o que é que a outra pessoa está a passar, por isso assumir instantaneamente algo através de opiniões de terceiros deixa uma grande margem para erro, lembrem-se disso.◻️