Capítulo 12

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Capítulo 12
Por Jem Mitchell

[PT]

"O carácter não é formado pela inteligência, é formado pelo sofrimento e superação de monstros invisíveis" -MC 2024

◼️A dor e o sofrimento deveriam ser abraçados, ao invés de evitados.

[De modo a evitar possíveis más interpretações destas minhas palavras, passo a explicar melhor o meu ângulo de reflexão e relembrar que qualquer "disclaimer" poderá ser encontrado no capítulo 0].

No mundo das artes só se consegue mover o público através da intensidade da entrega emocional, após o sujeito ter passado por situações desafiantes que lhe permitem aceder a um banco fictício de memórias derivadas da sua experiência de vida até então. É algo que é notório na música, na dança, em palco, numa fotografia, na passerelle, em qualquer meio artístico no geral.

O factor de diferenciação é a sinceridade com que a ligação emocional e relacional é sentida através do pequeno ou grande ecrã.

‘Conhecermo-nos como pessoas é algo intrinsecamente baseado no passado'. Não sou da opinião de que somos definidos pelo nosso passado e/ou que ele está pré-determinado, mas acredito que tem um papel importante ao moldar e influenciar o tipo de pessoa que visamos ser no futuro. Estou ciente de que a maioria de vocês gostaria que parte da vossa história fosse apagada com uma borracha gigante e metafórica, pois relembra-vos espaços temporais marcados por dor e sofrimento. Porém, hoje estou aqui para vos mostrar uma perspectiva ligeiramente diferente, pois é apenas analisando e aprendendo com o nosso eu passado que podemos continuar a evoluir como seres humanos.

Ter a informação disponível, mas escolher ignorá-la é um indício de imaturidade. As nossas ações têm ramificações para além do imaginável e/ou compreensível. De qualquer das maneiras, percebo porque possa ser preferível o obscurantismo pessoal para alguns de vós.

A vida não é um ‘mar de rosas’ e algumas das situações pelas quais temos que passar são penosas de processar. Há situações que demoram dias, outras meses, e outras alguns anos. Independentemente do timing de cada um, não vejo qualquer problema em parar e reflectir de forma consciente, pois a diferença está em como escolhemos usar essa informação e experiência do passado no nosso presente.

‘Não podemos estar contentes a toda a hora’. Não é humanamente possível nem deveria ser desejável.

Na minha opinião, os corações mais fortes são aqueles que simultaneamente revelam conter o maior número de cicatrizes. As pessoas mais generosas que conheci até hoje são precisamente aquelas que tiveram que enfrentar maus bocados, e genuinamente não acredito que isso seja uma coincidência, sendo que parece existir uma correlação entre a escala de sofrimento e a percentagem de influência que momentos menos desejáveis têm no nosso carácter.

Ao fim do dia, relembro-vos que o coração é um músculo e o cérebro também.

Dentro dessa linha de pensamento: Quantos de vocês, aficionados pelo ginásio, já ouviram falar do termo ‘hipertrofia’? Já alguma vez consideraram que talvez exista um método de provocar a hipertrofia no cérebro? Uma ideia fascinante, não acham?

Pois bem… existe.

Se deixarem de frequentar o ginásio durante um mês irão começar a sentir uma dificuldade substancial em continuar o progresso atingido até então. Não só irão sentir que perderam uma capacidade de força geral como a vossa resistência/estamina irá decrescer de forma significativa. Tal como mencionei acima - se o propósito é fortalecer o músculo - o cérebro requer ser sistematicamente rasgado e curado, como se de um ciclo vicioso se tratasse.

O corpo humano não vive sem a mente. Se existe uma tendência exagerada pelo mundo fora no que toca ao exercício físico e ao ginásio, porque é que não existe uma tendência com o mesmo nível de entusiasmo sobre a estimulação cognitiva diária? ‘Quem é mestre de palavras pratica Jiu jitsu verbal’ e, tal como em qualquer desporto, só nos podemos tornar melhores com consistência e treino. ‘Ter ideias é fácil, executá-las é difícil, ser consistente na sua execução ainda mais difícil é’. Sobrevivem aqueles que são consistentes com os seus valores.

Quem tira partido em demasia das redes sociais e da tecnologia está a perder certas habilidades a cada segundo que passa, promovendo a letargia e a procrastinação. É preocupante como alguns chegam a um limiar onde deixam de conseguir identificar esse facto por si só, levando a sociedade num caminho acentuado para a regressão da capacidade social e intelectual das pessoas.

A não ser que pretendam casar ou construir uma vida única e simplesmente com o vosso telemóvel (e não julgo, pois é verdade que existem pessoas com todos os mais variados fetiches à nossa volta), sugiro que comecem a pensar duas vezes sobre a invasão diária do tempo, sedentarismo e utilização de ecrãs azuis, e as suas consequências no vosso quotidiano.

‘Nem tudo tem que ser perfeito ou “Instagramável” para ser bonito’ e é com alguma confiança nas minhas palavras que vos digo que o valor palpável de algo não está nunca associado à imagem que aparenta ter. É de frisar que mais frequentemente do que não, uma fotografia não consegue capturar a beleza de algo presenciado ao vivo. Em marketing o conceito de “criação de valor” para o cliente é definido por “Pain vs Gain” (a tradicional expressão de que sem dor, não há ganho) –> e olhando à volta o mesmo se aplica à vida em si. A beleza de uma rua pode unicamente centrar-se no facto de que a sua vivacidade perdura pelo seu sentido de património se manter intocável, através do seu design e arquitectura. A apreciação da beleza da história e as suas rachas criadas pela passagem do tempo, comparada com a facilidade e opção de modernizar um clássico ou usar um filtro por cima… isso sim é de valor.

‘Não conhecemos verdadeiramente alguém até o confrontarmos com uma situação desfavorável ao próprio’. A força não é medida através do grau artístico de auto-dissimulação emocional. É precisamente o oposto! A aceitação de que nem todos os dias serão uma corrida num prado verde, abraçando os sacrifícios e os desafios que são colocados pelo caminho e que revelam o que devemos realmente seguir.

Uma lição que aprendi cedo ao longo da minha vida e que partilho aqui com vocês é que a gestão emocional não é sinónimo de afastamento ou ignorância de acontecimentos passados, mas sim a busca pela solução após a causa estar cuidadosamente identificada. Porém, em primeiro lugar não é possível resolver os problemas com o mesmo nível de informação que os causou. Nova informação é necessária, informação essa que não se encontra online.

As emoções são uma resposta orgânica do nosso sistema a algo. Quando não são devidamente abordadas, acumulam e eventualmente transformam-se numa reação irracional, com sérias repercussões no nosso dia-a-dia. “Quando as emoções estão em alta, a lógica baixa” e é nesses momentos que as pessoas dizem coisas atrozes sem sentido.

Se passaste por uma situação complicada, mas ainda não arranjaste tempo para processares os seus acontecimentos com o respeito que merecem, devias. Se não choraste, sentiste frustração, irritação… devias. É importante permitir que as emoções menos boas sejam vistas como algo natural e necessário. A falta de tempo para o fazer é puramente uma desculpa do próprio para não ter que enfrentar sentimentos que causam algum desconforto e são desagradáveis de reviver, pois se acreditas que não chorar é suposto simbolizar força interior e auto-regulação emocional, estás a enganar-te a ti mesmo.

‘Pessoas bem-sucedidas encontram uma oportunidade em cada fracasso; as outras encontram um fracasso em cada oportunidade’

Segundo a minha óptica 👀 aqueles que mais se queixam na vida são aqueles que normalmente não têm razões para se queixar, pois quem sim, aprecia com gratidão os mais míseros segundos de alegria. O que lhes aconteceu não deixa de ser relevante, mas mais importante do que isso, o carácter de cada um é sentido perante como é que escolheram reagir ao que lhes aconteceu.

‘Mares agitados fazem bons marinheiros’… não é verdade?

Pessoalmente, e tal como qualquer pessoa que esteja a ler este capítulo, já passei por inúmeras desilusões na vida. No meu caso, nada foi mais doloroso do que eu aperceber-me que teria que escolher entre a minha saúde e a minha paixão. Esse foi o momento em que o meu chão desabou. Em simultâneo, enquanto uma parte do meu mundo estava a colapsar, outra parte estava a renascer de um modo inesperado. Esse momento serviu como inspiração para uma onda de criatividade seguida de pensamento crítico. Milhares de perguntas surgiram na minha mente relativamente ao porquê desses dois mundos não poderem existir na mesma estratosfera…

…e ainda acredito que podem, se as circunstâncias certas se alinharem.

No dia 9 de Agosto de 2021, após batalhar continuamente em loop contra os meus monstros invisíveis, encontrei as seguintes palavras por mero acaso: “…por uma questão de respeito pela individualidade de cada um de nós, sigo em frente. Para ela poder fazê-lo de forma consciente e sem a influência das nossas opiniões, nada mais me resta senão respeitar.”

Não estou ciente se conseguem captar a profundidade do nível de dor que essas palavras carregam consigo, queridos leitores. Porém, devo acrescentar que sem dúvida que ‘pais lutadores criam filhos lutadores’.

Após eu ter estilhaçado a confiança dessa pessoa - essa pessoa sendo eu mesma - decidi confrontar os meus entes queridos e informá-los de que nos próximos meses (ou talvez até anos) provavelmente iria tomar as decisões erradas (dentro do possível de forma responsável), pois seria a única maneira de poder aprender e satisfazer a minha curiosidade de experienciar certas coisas da vida em 1ª mão… e eis o prólogo de como me tornei o objecto da minha própria experiência social.

Pode soar meio absurdo ao início, mas num mar tumultuoso não conseguimos navegar uma onda sem primeiro apanhar o impulso vindo de baixo 🌊

Se tens estado a seguir este meu projecto que escrevo com tanto amor e dedicação desde o seu começo, imagino que já deves ter criado uma espécie de identidade vaga que define quem eu sou na tua mente. Desde as mensagens de cariz pessoal que recebo - pelas quais estou infindavelmente grata - infiro e acredito que o que nos une nesta plataforma 2D é a vontade de querer melhorar a compreensão do mundo que nos rodeia, começando pela comunicação deficiente que tem vindo a ser enaltecida pelo apelo do mundo virtual. É de frisar que “muita virtualidade e fantasia leva as pessoas ao descontentamento pelo mundo real” e é essa a causa principal para a epidemia de solidão e isolamento com que estamos actualmente a lidar.

Podemos não nos dar crédito suficiente pelas situações que temos de enfrentar na vida, pois definitivamente não é gentil. Poderia contar-te uma versão de conto de fadas saída diretamente de um filme da Disney sobre como é maravilhosa, mas mesmo os filmes da Disney têm histórias tristes subjacentes, se prestares realmente atenção ao seu enredo.

‘Leal, Corajoso e Verdadeiro’ é o lema do espírito festivo desde ano. Um lembrete de que ‘ser corajoso não significa não ter medo’, mas sim não permitir que o medo impeça de ir do ponto A ao ponto C.

Incentivo-te a não desanimares se as coisas não correrem como planeaste inicialmente. Nem tudo acontecerá como gostarias que acontecesse, mas não deves deixar que isso seja a razão para desistires do que queres alcançar. Façamos bom uso de 2025 em conjunto~

Boas Festas a todos! Encontramo-nos no próximo ano (:

De: MC◻️