Capítulo 11

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Capítulo 11
Por Stefano Guindani

[PT]

"Não conseguimos vencer contra quem está apenas a fazer o que ama" – 2ª Parte

◼️Uma rapariga nascida em terras portuguesas, com raízes africanas, uma “mentalidade asiática” e educação britânica de base. Quão mais complexa podia ser esta história? Ainda nem vamos na metade...

A música foi o meu primeiro encontro com a comunicação;

O português e o inglês foram os meus primeiros meios linguísticos e que aprendi em simultâneo;

A dança foi o meu primeiro entendimento do que é uma conversação não-verbal.

De que forma é que a dança é relevante para o desenvolvimento e cuidado pessoal de cada um? Irei partilhar convosco dentro de uns minutos.

Mas antes, a 28.ª edição dos Globos de Ouro da SIC/Caras decorreu recentemente e à medida que as semanas da moda em Lisboa “ModaLisboa” e no Porto “Portugal Fashion” se aproximam, fui relembrada de que, e possivelmente para surpresa de alguns de vós… não passei no casting da primeira temporada a que concorri.

O processo de casting de eventos desta magnitude ocorre geralmente apenas uns dias antes do mês em que os designers portugueses têm uma plataforma para mostrar o seu trabalho e as novas coleções com as tendências dos próximos meses. No meu primeiro ano de ‘rookie’ ou ‘new face’, assisti aos meus colegas de indústria e/ou agência a desfilar na passerelle através do meu computador, aceitando o facto de que ainda não estava ao nível de me juntar aos profissionais.

Hoje em dia, suspeito que alguém que seja confrontado com a mesma situação e circunstâncias, opte por usar as redes sociais como um canal de divulgação de feedback com uma predisposição maliciosa ao usar argumentos tais como: ter-se sentido julgado pelo director de casting ou ‘scouter’ de talentos; ter-se sentido desconfortável ao andar frente ao painel de jurados, quando não houve nenhuma linha ética a ser pisada; Ao invés de reconhecer que precisa de mais treino.

Ora, aqui nos deparamos com a chave do negócio 🎩🪄 e que eu gosto de chamar de “o ciclo traiçoeiro da empregabilidade”, pois repete-se e aplica-se a todos os sectores:

🔸Por um lado, há uma inclinação para se optar por não contratar quem ainda é “verde” e não tem muita experiência no mercado, quando a única forma de aprender é fazendo e sendo posto à prova no terreno.

🔸Por outro lado, as empresas operam sob o pretexto de preferir alunos recém-graduados/estagiários inexperientes sem processos de ética de trabalho prévios, para que assim seja mais fácil moldá-los de acordo com as suas expectativas estruturais. Porém, escolhem por não remunerar esses novos recrutas com um salário adequado justificado pelo facto de o currículo ser limitado, o que reduz significativamente a qualidade de vida do jovem que quer construir uma vida sem ajudas.

Na minha opinião e usando esta analogia, o passo mais importante é encontrar alguém que acredite no potencial que temos para dar. Afinal de contas, as 'pessoas contratam pessoas', por isso acredito que quem conseguir projetar a paixão e ambição para ir mais além, eventualmente cruzar-se-á com alguém que lhe irá dar uma oportunidade, desde que o próprio saiba jogar com as cartas do jogo a longo prazo.

Concordo que o factor sorte não deve ser excluído desta minha reflexão, mas a sorte surge ‘quando a oportunidade e a preparação se encontram’, logo, quem está sucessivamente a preparar-se e a equipar-se com conhecimento e qualidades particulares, não tem como falhar. Alguma vez ouviram a expressão: “Se és a pessoa mais inteligente da sala, estás na sala errada”?

No mundo do trabalho é imperativo que não deixemos as nossas emoções controlar as nossas decisões e ações, mas sim impulsionar-nos e motivar-nos a sair da nossa zona de conforto e a estar ok com a mentalidade de iniciante. Pessoalmente aconselho sempre os meus amigos a não verem os “nãos” como algo pessoal ou um gatilho para a sua insegurança, mas sim como parte de um caminho de pedra que está a ser construído.

É inevitável que tudo o que nos é pouco familiar será parcialmente assustador. Num cenário ideal, queremos agarrar e prolongar a mentalidade de iniciante, pois simboliza a vontade de querer saber mais --> o que propulsiona a determinação inicial de fazer um bom trabalho.

Faz já quase 20 anos desde que eu comecei a dançar. Cobre uma parte tão grande da minha vida que considero ser comparável a respirar. Aos meus olhos, sem a dança (e sem a música), a vida perde parte da sua essência.

Ao longo da minha carreira como modelo uma das decisões que me permitiu priorizar os objectivos que queria alcançar, foi a de ter que desistir temporariamente de dançar. Numa profissão onde o corpo é o meu instrumento de trabalho, passei a ter que ser mais responsável quanto às possíveis lesões que me poderiam impossibilitar de estar apta para trabalhar em condições por várias semanas, ou até meses. Ao descobrir que o pilates tinha um fundamento de movimentos baseados em fisioterapia e ballet, tentei substituir a minha rotina, mas por muito que praticasse 4, 5, 6 vezes por semana, continuava a ser incomparável à sensação de felicidade que a dança me proporcionava.

O que resultou da negligência consciente do meu desejo de continuar a expressar-me num mundo que incentiva a arte de movimentar o corpo a um certo ritmo, foi numa insatisfação sem um fundamento identificável, mas que ia crescendo aos poucos na minha mente.

Da forma como eu vejo as coisas, uma conversa é uma ‘dança’ entre duas pessoas, sendo que ‘não se dança o tango a solo’. A comunicação vai muito para além de dizer o que nos vai no pensamento e esperar que alguém o implemente. O limite da partilha é delimitado pela abertura do outro ‘parceiro de dança’ no que toca à sua disposição para ouvir diferentes pontos de vista.

Nos anos em que trabalhei como dançarina profissional para uma empresa de produção, as coreografias variavam no estilo e por vezes incluíam acrobacias/trabalho de chão/elevações, tornado possível unicamente pela ajuda e força do meu parceiro. Ainda me lembro da primeira vez que tive a honra de dançar uma peça contemporânea no centro do palco ao som de “Yellow” dos Coldplay, e do quão nervosa estava ao realizar uma elevação difícil. Se bem que eu era a mais nova da empresa, com quase 10 anos de diferença entre mim e a segunda mais jovem, estava motivada a melhorar e foi essa força interior que me levou a certificar-me de que praticava a cada intervalo de tempo que me surgia.

Durante os 3 anos em que estudei na escola secundária, os funcionários que trabalhavam no período do intervalo de almoço já me conheciam como “a rapariga da chave”. Quer fosse no auditório ou numa sala de aula vazia, eu escolhia levar o meu almoço de casa e os adereços necessários (saltos altos, leques, meias anti-derrapantes, etc…) e investia esse tempo a aprimorar a minha técnica, garantindo que deixava a sala nas mesmas condições em que a tinha encontrado. Entre 2012 e 2015, juntamente com a minha melhor amiga co-criámos e coordenámos o Clube de Dança Oficial da escola, e em Março de 2014 chegámos inclusivamente a vencer uma Competição Regional. A dança promove uma sensação de bem-estar, união e interação cultural - algo sempre presente em cada ensaio.

Partilhando convosco o prometido, os efeitos neurológicos da dança e a sua relevância para o desenvolvimento pessoal de cada um é fascinante. De acordo com um estudo da Harvard Medical School, está intimamente ligado à formação de novas redes neurais, particularmente em regiões que afetam funções executivas no cérebro, a memória a longo prazo e o reconhecimento espacial. Quando os componentes fulcrais do sistema cerebral que controlam o movimento corporal - células produtoras de dopamina - morrem, os distúrbios do sistema motor tendem a formar-se de forma progressiva. Isso começa a ser visível em pessoas cujo desempenho do córtex somatossensorial, o responsável por organizar a intensidade dos estímulos sensoriais, têm dificuldade em gerir várias tarefas ao mesmo tempo ou a fazer ‘multitasking’, e em coordenar o que veêm com o que fazem.

A paixão por algo é um dom que nem todos têm a ‘sorte’ de nascer com. Ser bom em algo pelo qual somos apaixonados por, ainda mais raro é e exige longas horas de trabalho e suor. Quando fazemos algo que gostamos, a nossa mente por vezes prega partidas e questões como “será que estou a esforçar-me suficientemente?” surgem, pois ao invés de consumir a nossa energia, torna-se divertido. Ao fim do dia sentimo-nos vivos, e não esgotados.

A prática de exercício físico regular, tal como a dança, promove o aumento da neuroplasticidade cerebral e permite que cada um aprenda a aceitar informação que contraria o expectável --> expandindo assim os seus horizontes.

Neste cenário mutável das emoções humanas, a felicidade não deve ser nunca o objectivo final. A felicidade é uma emoção e uma escolha, não um resultado. As nossas emoções estão em constante mudança, e em grande parte, são incontroláveis. A definição de felicidade pela sociedade que nos rodeia - perseguir prazeres momentâneos, gratificação imediata ou uma busca interminável por algo mais - parece levar o ser humano a processar informação usando uma rota periférica de persuasão.

Aconselharia a não procurarem pela felicidade, mas sim pela vossa paz.

A paz interior não é uma excepção das contradições circundantes, pois requer ter que passar por momentos de verdadeiro desconforto e, por vezes até ter que caminhar num lado do passeio que outros definem como sendo solitário ou desafiante. A paz surge ao longo do tempo, abstenta da atenção que outros peões possam ou não dar, pois a atenção constante gera inseguranças e más decisões.

Prazeres a curto prazo e objectivos superficiais agem como uma distração que não nos permite sentir centrados e eficientes. Posso partilhar convosco que, na minha opinião, a luz da vida debruça-se na descoberta das qualidades exclusivas que nos fazem ser quem somos - cada um com os seus pontos fortes e fracos. Não está em sermos um clone das qualidades de outra pessoa.

É verdade que as características que nos tornam seres únicos são provavelmente as que irão ser as mais criticadas por outrem, mas já não foi provado que são as mentes mais vazias que fazem o maior ruído? Apesar do crescimento pessoal não ser óbvio, pessoas que escolhem a paz em vez do drama e a distância em vez do desrespeito, estão a desafiar as expectativas da sociedade em si e a reforçar a minha crença de que a felicidade é uma equação matemática composta por qualidade de vida menos inveja.

Na vossa opinião, qual a importância do papel que atribuem à paixão na vossa jornada?◻️