Capítulo 10
[PT]
"Não conseguimos vencer contra quem está apenas a fazer o que ama" – 1ª Parte
◼️À medida que vou conhecendo cada vez mais pessoas e dos mais diversos sectores, mais me convenço de que a comparação é a ladra da felicidade. E, por hábito, quantas mais camadas são desvendadas sobre alguém, mais razões as pessoas encontram para estarem insatisfeitas com a sua realidade. Tudo isto amplificado pelo alcance e algoritmo selectivo das redes sociais, culmina numa receita desastrosa.
Tenho pena ao olhar à minha volta e ver tantos jovens a não gostarem de ou a temerem ir trabalhar no dia seguinte. É inquestionável que o trabalho cobre uma grande percentagem da vida de qualquer um e, na minha opinião, não deve ser visto apenas como uma tarefa a riscar da lista de afazeres semanal.
Chamem-me estranha, mas sempre adorei trabalhar e sei que é por gostar e ver essa necessidade sob uma luz positiva, que o resto faz sentido. Só nós conseguimos determinar como queremos encarar a vida: será como uma caminhada turbulenta sem fim onde desenvolvemos “FOMO”, ou será como uma jornada com os seus devidos altos e baixos, mas no final das contas poderá surpreender aqueles que lutam pelo que querem?
Para exemplificar essa primeira opção, partilho com vocês uma das estudadas e possíveis causas do desenvolvimento desse medo de ficar de fora.
Antes da era digital, este conceito era inexistente. A ansiedade associada ao acto de assistir outros a viver e/ou a superar fasquias que outros indivíduos não tinham acesso até então, tornou-se aparente naqueles cujas expectativas/nível ou potencial não estão a ser alcançados no presente. Por essa razão, esse conjunto de pessoas virou mais susceptível a experienciar “FOMO” em primeira mão.
Posso dar-vos um culpado para tal desenlace --> a amígdala.
Não vos vou entediar com conhecimento científico nesta área, mas o responsável pelo processamento das nossas emoções é, nada mais nada menos, que o nosso sistema límbico. A activação da amígdala cumpre um papel significativo no desenvolvimento da ansiedade. Sentimentos como a inveja e o ressentimento passam a ser mais pronunciados quando os indivíduos mencionados nos parágrafos acima se deparam com vidas aparentemente perfeitas nas redes sociais, e despoletam um descontentamento próprio enfatizado. O papel da amígdala está directamente relacionado com a capacidade de memória de cada um e de aprender coisas novas. Ao invés de culpabilizarmos os outros pelas nossas próprias insuficiências, sugiro que cada um aprenda a comandar e treinar como regular reações comportamentais e fisiológicas a estímulos fúteis.
Com certeza alguns hão de pensar que: “É fácil falar, mas difícil pôr em prática”. E estou completamente de acordo. Não escrevo para contrariar esse pensamento, mas relembro-vos para não partirem do princípio que quem é bem-sucedido na vida alcançou-o ao ter um percurso fácil. A diferença principal surge na persistência necessária e no espírito de luta no indivíduo que quer continuar a correr atrás dos seus sonhos, não obstante das complicações alheias.
Enfrentar dificuldades e superá-las é a base da auto-confiança de qualquer ser humano e deveria ser razão de orgulho sem necessidade de validação externa.
Para vos falar um pouco mais do meu percurso, comecei a "trabalhar" aos 3-4 anos de idade quando fui descoberta na praia recém-chegada a Portugal, após viver uns anos em Cabo Verde. Dado esse factor, ir a castings, audições, filmagens, dobragens em estúdio, ou sessões fotográficas para catálogos, requeria ter que faltar justificadamente às aulas ou sair mais cedo. E no meu tempo livre: natação, ballet, ensaios do coro da igreja aos fins-de-semana, e um estudo mais aprofundado com o foco em dominar a língua inglesa preenchia os meus dias.
Não vos vou dizer que foi fácil gerir tudo com a mesma qualidade e empenho, mas sabia porque o fazia e acreditava que estava a construir a base para mais tarde concretizar os meus objectivos - apoiada pelo investimento, tempo e contribuição dos meus pais.
Não existem ‘histórias sensacionais de sucesso da noite para o dia’, apesar dos média adorarem pintar essa imagem nas mentes dos jovens de hoje em dia, para poderem vender e criar fascínio à volta desse ideal idiossincrático. “O timing, a perseverança e 10 anos a lutar por algo eventualmente irá dar frutos". Sejamos sinceros: ninguém está interessado em ler notícias sobre o quão difícil e exaustiva foi a caminhada de alguém até atingir o sucesso. O que as pessoas querem são palavras e histórias polémicas que dêem que falar OU pelo seu factor de choque OU pelo seu factor emocional. Se a história que está a ser contada é realmente fiel à realidade parece não ser importante, pois é consumida na mesma através das redes sociais. E, se por ventura der azos a que os seguidores verbalizem a sua opinião sobre essa versão (quer seja uma opinião relevante ou não), é então partilhada pelos mais variados canais e permite preencher o ego de quem lê.
‘A saúde é a nossa única real fortuna’.
No meio da agitação e tumulto dos tempos instantâneos, é fulcral que cada um encontre o que o faz sentir sereno e contribui para o bem-estar interno e externo. No meu caso, apesar de eu sempre ter tido interesses variados, a grande maioria reunia-se à mesa do departamento das artes.
Comecei a minha educação de base na escola “Queen Elizabeth School” onde aprendi tanto o português como o inglês como línguas-mãe. Ao observar a direção em que o mundo estava a virar devido à ascensão rápida da globalização, os meus pais fizeram o esforço de me matricular numa instituição onde me permitisse construir um futuro com vista no mercado internacional. Nessa escola, as crianças aprendiam a decorar novas palavras e expressões através de músicas populares britânicas, exploravam o seu lado criativo, e acima de tudo, encorajava a aceitação das diversas nacionalidades e a importância do bem-estar comunitário.
Ainda tenho vagas memórias no que toca às aulas de educação musical. Os cilindros de madeira eram usados como auxílio na percepção dos diferentes ritmos, como identificar a primeira batida (fundamental para dançarinos), e o porquê da estrutura ser dividida em conjuntos de 8 compassos.
Para mim, uma vida sem música não é uma vida plena. A música tem certas particularidades e consegue trazer emoções à superfície que me permitem expressar uma panóplia de sensações através do ecrã, de outra forma impossíveis de manifestar.
Cada género é caracterizado pela sua própria cor, sem necessidade de letra, com o propósito de trazer o ouvinte numa viagem melódica. Não só não requer que o ouvinte saiba ler ou falar, como atravessa fronteiras linguísticas, o que considero muito peculiar.
A música sempre esteve presente na minha vida. Atrevo-me a dizer que é uma fonte de conforto independentemente do país onde me encontro. Há quem diga que 'a familiaridade gera desdém com o tempo', mas há que ter em consideração que há músicas que têm a capacidade de envelhecimento do leite, e outras de um bom vinho. E, se me permitem, a metáfora da música neste parágrafo pode muito bem ser associada a pessoas. Deixo ao vosso critério e imaginação como decidem interpretar as minhas palavras, queridos leitores.
O concerto mais memorável que presenciei ao vivo foi o da compilação cinematográfica do Hans Zimmer. O som produzido pelo conjunto dos instrumentos da orquestra levou-me às lágrimas e relembrou-me do quão grata estava por ter a oportunidade de partilhar esse momento com a minha mãe.
A influência dos meus pais é sem dúvida sentida no meu gosto musical, pois crescer numa casa onde a principal atração da sala de estar é um leitor de CDs, com álbuns na parede e colunas espalhadas em cada canto, só pode criar um ambiente divertido. Anualmente a minha família ia de férias de esqui para Espanha e pelo caminho ouvíamos sempre U2. Posso garantir-vos que U2 + neve resulta numa combinação sensacional 🚗🎶
Se por razões fora do meu controlo passo um dia inteiro sem ouvir música, sinto imediatamente que afeta a minha disposição. Quando estou embrenhada no processo de criação [transformando ideias vagas em concretas], a música inspira-me e tem um impacto directo na decisão sobre a rota a vaguear.
Há dias em que é difícil silenciar o processo de criação de ideias, ao ponto de ter que parar o que estou a fazer e dedicar-me nem que seja 10 ou 15 minutos a entreter a possibilidade que passou por breves instantes na minha mente. Esses momentos surgem de forma inesperada, por vezes ao longo do dia, por vezes de madrugada, e a única forma de conseguir adormecer em paz é saber que gravei em formato de áudio a frase, melodia ou letra num dos meus telemóveis, de modo a poder trabalhar nesse conceito no dia seguinte ou quando tiver disponibilidade.
A sociedade gosta de reforçar o pensamento de que para termos a capacidade de alcançar os nossos sonhos, temos que ser tendencialmente sobredotados na área que queremos seguir desde cedo. Porém, a minha opinião pessoal difere. Não há nada que com prática suficiente, não seja passível de se tornar realidade.
'O tamanho dos nossos sonhos deve sempre exceder a nossa capacidade actual para os concretizarmos'. A dedicação à construção do conhecimento na área por que temos interesse aparentará como sendo algo chato e trabalhoso para quem está do lado de fora, mas para o próprio será como uma brincadeira estimulante. É nesse momento que sabemos que estamos a percorrer o caminho certo. Talvez seja neste instante que a minha auto-proclamada "mentalidade asiática" ganhe força, mas se estás a ler este capítulo e sentes que ainda não chegaste a esse ponto --> isso é uma coisa boa! Ter uma visão da vida que te inspire diariamente e tentar todos os dias fazer algo para te aproximares dessa visão é importante. Ter uma margem para crescer e continuar a dedicar horas a fio para te tornares melhor a cada dia que passa, é necessário para entrar num estado de auto-aperfeiçoamente contínuo. A pior sensação é o sentimento de estagnação no desenvolvimento pessoal e/ou profissional, onde a pessoa deixa de ver uma escada para além da porta. Se estás ciente e te relacionas > mas escolhes conformar-te perante esse facto < precisas de sonhos mais ambiciosos.
A música pode trazer felicidade, mas também pode trazer dor e sofrimento. Tal como a vida. Se escolhemos quais as canções que queremos incluir na nossa "playlist", porque não podemos escolher quais as situações em que nos colocamos ou como queremos deixá-las afetar a nossa caminhada? O começo é tão simples como não carregar num botão... Algo para vos pôr a pensar.◻️