Capítulo 2
[PT]
“Criticar é fácil, criar é difícil” – 1ª Parte
◼️Em Portugal não é segredo nenhum que a moda não é devidamente valorizada. Temos uma qualidade excepcional no que toca a fábricas de têxtil no Norte do país, criativos especiais e uma indústria do calçado próspera – que tem vindo a ser reconhecida por exportar internacionalmente – mas conseguir uma posição sólida e inabalável neste meio não está ao alcance de todos.
Quando alguém começa algo novo, o primeiro passo acaba por ser copiar o que outrora já foi provado bem-sucedido por outrem (refiro-me a uma fórmula, uma estética, uma estrutura de negócio, etc…) Tanto é aplicável a pessoas como a coisas. Com o tempo e a experiência ganha, a pessoa desenvolve o seu próprio estilo, interpretação e expande a sua ‘marca’ aos poucos. Cópias baratas hão sempre de existir para tentar substituir e/ou replicar o valor da marca, a partir do momento que esta deixa de ser novidade. Porém, até chegar o dia em que nos apercebemos que não é o corpo, a cara ou o Photoshop que fazem a diferença, demorará o seu tempo a ser corrigido.
Se olharmos com atenção para os ‘mood boards’ da maioria dos produtores de moda, há uma semelhança mistificante e a criatividade fica aquém do potencial. Aqueles que realmente querem distinguir-se neste meio hiper-competitivo são, mais vezes do que não, desincentivados com relutância e presenciam as suas asas criativas a serem destruídas a olhos vistos. Essa atitude constrói um ambiente conservador no estúdio e os estilistas acabam por ter menos espaço de manobra para arriscar.
Pode não ser a primeira impressão com que ficamos, mas ocasionalmente há momentos que comprovam que a moda não é uma indústria muito criativa. Há clientes que chegam ao set com uma imagem tão específica que não deixa margem para outra opção que não um produto-clone dessa captura de ecrã. Normalmente não estão dispostos a ouvir opiniões, inclusive da equipa com quem estão a trabalhar, o que resulta em reações robóticas e desânimo. Nessas circunstâncias, o modelo passa a ser uma “marioneta” cujo trabalho é copiar todos os detalhes/ângulos/nuances que a imagem de inspiração possa ter, o que retira a magia de criar algo novo. Há inclusivamente clientes cujo conceito de espaço pessoal é ignorado, de tal forma que mexem os braços e as pernas dos modelos de acordo com a sua vontade, sem aviso prévio.
O meu primeiro trabalho como modelo profissional foi precisamente assim.
Nesse dia tinha-me sido confiada uma pose para eu copiar. Tentámos durante algumas horas recriar a imagem de referência da forma mais fiel à original possível e no fim fui para casa. Olhando para trás, podia ter sido uma experiência desencorajadora. Na realidade eu estava bastante entusiasmada, sentia-me honrada por ter sido a escolha para esse papel e já andava a contar os dias até à sessão há algum tempo. Não só iria ser exibido num grande painel publicitário, como iria lançar a minha carreira. Esse trabalho acabou por ser mais memorável do que eu alguma vez tinha antecipado, e foi futuramente usado como fonte de motivação para provar a mim mesma que um mau capítulo não define a nossa história.
A pose em questão requeria certos cuidados. Era desafiante em termos de equilíbrio e de postura, e mesmo usando os meus conhecimentos de dança e consciência corporal, há limites que o corpo determina por si. A cereja no topo do bolo foi a compreensão tardia em como esse primeiro trabalho originou uma maré de críticas, comparações e comentários de carácter sexual dirigidos a uma rapariga de 15/16 anos.
Ao longo da minha carreira mantive sempre uma distância para garantir que a minha imagem não era objectificada, pois acredito que há certas coisas que não devemos tornar públicas, entre elas tudo o que está directamente relacionado com a nossa intimidade e privacidade. Quer isso fosse dar-me uma desvantagem ou não, foi um caminho que nunca considerei. De referir que por eu ter esta opinião sobre o assunto, não quer dizer que tenha algo contra quem o faz. Acho que é uma decisão pessoal e que, acima de tudo, deve ser consentida.
Este tópico e as suas ramificações merecem uma reflexão aprofundada e não um mero parágrafo, por isso planeio voltar a tocar nele em publicações futuras.
Quem é modelo está entre as pessoas mais inseguras que conheço, mas ao mesmo tempo mais resilientes. O seu aspecto físico vive sob as luzes dos holofotes e é discutido e avaliado por estranhos, o que faz parte da descrição do trabalho. Não posso deixar de aplaudir individualmente quem tenta singrar neste mundo, especialmente quem resiste durante mais do que uma temporada fora, pois poucos realmente entendem o quão difícil é lutar por concretizar um sonho quando as probabilidades estão contra. A disciplina necessária tem que ser de pedra, de outro modo, à primeira barreira a ter que saltar, a pessoa desanima. Pessoalmente já tive a oportunidade de trabalhar sob as condições climáticas mais variadas, por vezes sem acesso às necessidades básicas, fui posta em situações de perigo, adoeci e não tinha ninguém que pudesse cuidar de mim a não ser eu mesma e num país onde não falavam a minha língua (nem inglês); Fotografar roupa de Inverno no Verão – e Verão no Inverno, andar sobre areia, gelo, vidro, chuva… Este é o lado que não é visto nem falado, mas criar algo que aparente ser sem esforço requer muito esforço.
Uma coisa que gostava de clarificar aqui é que ser “modelo de redes sociais” não é o mesmo tipo de trabalho que eu e os meus colegas temos. Não deixa de ser um trabalho respeitado e até podem ser representados por uma agência, mas as facilidades que eles/elas enfrentam são incomparáveis. Têm os seus próprios desafios a superar, mas têm também um dizer sobre qual a foto a ser publicada.
Um modelo que esteja a trabalhar no activo tem que ter a coragem de não agradar. Não perante as pessoas com quem trabalha, mas sim perante quem poderá ver o seu trabalho publicado e não entender a sua finalidade. É preciso ter garra, bravura e altruísmo. Se há quem prefere tirar fotografias apenas com o seu lado direito, por exemplo, não pode limitar o cliente por questões de ego. Não será ele quem irá decidir qual a foto a ser impressa, e se por alguma razão o cliente preferir o perfil esquerdo, será essa a fotografia aprovada.
No departamento de artes performativas, um músico aprende a cantar, um bailarino aprende a dançar, mas um modelo não aprende a ser modelo… Pelo menos, não no meu país. Aprende-se ao fazer, experimentar, tentar e falhar, ao ficar frustrado com o resultado final e procurar formas de melhorar a conexão com a câmara. Aprende-se ao observar com atenção outros modelos que trabalham bem na indústria, ao estudar os seus pontos fortes e fracos e ao melhorar a postura corporal em frente ao espelho. É todo esse trabalho invisível que marca a diferença ao fim do dia.◻️