Capítulo 3
[PT]
"Criticar é fácil, criar é difícil" – 2ª Parte
◼️No post da semana passada foquei-me em escrever sobre algumas experiências que vivi no início da minha carreira como modelo profissional. Tenho recebido feedback de pessoas que partilham comigo como se sentem ouvidas e como se relacionam com alguns julgamentos imediatos, apesar de serem de outro ramo de actividade. Esta é precisamente a intenção principal do meu blog. O mundo da moda não é uma excepção, é apenas mais uma indústria num mar delas. As minhas experiências são aplicáveis tanto a outros sectores como à vida em geral, e ao partilhá-las convosco, e ao ver a vossa disposição para perderem 5 minutos por semana a ler/ouvir o que eu tenho a dizer – o que aproveito para deixar aqui o meu agradecimento – estamos um passo mais perto de criar uma plataforma mais compreensiva e positiva.
Olhando à volta e por norma, as pessoas assumem papéis na sociedade para os quais têm características delineadas para exercer tal posição. A escolha mais inteligente de modo a fomentar uma maior satisfação no trabalho reside em dedicarmos o nosso tempo a algo que gostamos de fazer, somos bons a fazer, o mundo precisa, para além de, ser algo pelo qual podemos ser pagos. É fundamental encontrarmos algo que nos dê uma razão para viver. Eu sigo o conceito japonês 生き甲斐 ‘Ikigai’, entre outros, como um dos modelos etimológicos em que acredito e provavelmente mais pessoas iriam tirar partido dele ao saberem da sua existência.
Criar algo de raiz costuma gerar más primeiras impressões e dúvidas, pois o caminho a percorrer é incerto. A forma como eu organizo e crio os meus projectos está directamente relacionada com o facto de eu nunca partilhar os meus planos antes de estarem totalmente formulados na minha cabeça, caso contrário a probabilidade de eles serem influenciados por opiniões de terceiros é alta e arrisco-me a perder o seu intuito original. A crítica à criatividade e a resistência inicial ao apresentar novas ideias fazem todas parte do processo. Por várias vezes comentam comigo: “Não fazia a mínima ideia de que estavas a pensar fazer x”. É natural. Se não partilhei essa informação de livre-vontade, é impossível saberem. Apenas o meu círculo mais fechado ouve por alto e de passagem algumas das minhas ideias, mas a não ser que eu tome uma atitude para as concretizar, não são nada mais do que mais uma fantasia.
Na realidade as palavras são baratas. Falar é fácil. Pôr em prática, não tanto. Mas pelo facto das palavras nem sempre terem um valor alto devemos desprezá-las? Longe disso. Apenas quer dizer que palavras sem ações coerentes, dado que há uma facilidade em mentir hoje em dia, não devem ser levadas totalmente a sério a não ser que conheçamos bem a pessoa que as disse. Ao longo da minha vida sempre observei bem os comportamentos das pessoas em primeiro lugar. Há uma citação que diz: “Se as pessoas dizem uma coisa e fazem outra, confia nas suas ações.” É muito mais difícil mentir através das atitudes e a expressão corporal também tem o seu peso, embora não lhe seja dada o reconhecimento devido. Muitos não se apercebem dos segredos que são expostos com simples gestos.
Eu sempre usei o meu corpo como uma forma de expressão no trabalho para poder criar histórias ao fazer o público sentir algo. Quando estamos impossibilitados de falar e comunicar, a única opção que temos é de estudar a conduta humana e a psicologia por detrás. No entanto, quero fazer aqui um parêntesis pois há pessoas que aprendem a ler a conduta humana com intenções de controlar os outros à sua volta e essa é a base da manipulação. Não é de todo ao que estou a referir-me de momento. Quero antes dizer que aprender essa arte e utilizá-la para nosso benefício ao nos conhecermos melhor a nós, e não aos outros, pode ajudar a limitar a margem para a má comunicação. Mesmo assim, não há uma ‘solução que resulte com todos’ e o número de vezes que já fui mal interpretada na vida é demasiado alto para contabilizar.
De qualquer modo, más interpretações são rapidamente esclarecidas junto de amigos chegados e familiares se formos fiéis à nossa palavra no nosso dia-a-dia. Por várias vezes e em diversas situações há quem se surpreenda pelo facto de eu realmente atribuir um significado ao que digo. Não falo por falar. Para isso, opto pelo silêncio. O que é que as pessoas ganham ao mostrarem falta de consistência? A única coisa que conseguem produzir é confusão ao comportarem-se dessa maneira. Questiono-vos sobre como é que podemos acreditar no que nos dizem, se não atribuirmos um significado a tudo o que dizemos?
No passado o elogio e/ou comentário que mais me dava prazer ao ouvir era quando alguém dizia “Ah, tu não mudaste”. E não mudei. Até ao dia de hoje faço esforços para crescer, aprender e melhorar a minha percepção sobre mim mesma, mas o meu ‘core’ (núcleo/personalidade) mantém-se intocável. Segundo a Taylor Swift: “Eu nunca vou mudar, mas também nunca vou ser a mesma pessoa”. Não podia ser mais explícito o quão paradoxal o ser humano é na práctica. Para melhor ilustrar o que quero dizer com isso, eis alguns exemplos pessoais:
Aos 6 anos já questionava a religião, chegava a casa após a conclusão dos treinos do coro da igreja onde andava e perguntava à minha mãe porque é que eu sentia que alguém tentava impor-me certos ideais enquanto exageravam histórias do foro ilusório. Ainda hoje continuo a questionar certas coisas.
Aos 8 anos apaixonei-me pela dança. A cada 2 anos tinha exames da ‘Royal Academy of Dance’, organizados em Lisboa por professoras inglesas que viajavam de propósito a uma altura específica do ano, para avaliar o progresso dos alunos. Passei anos a dedicar-me a implementar o rigor e a disciplina necessários no ballet. Ainda hoje é uma actividade na qual me esforço, enche-me o coração e traz-me paz interior.
Aos 11 anos presenciei em frente da minha turma inteira o que é ser alvo de agressão física em aula enquanto os meus colegas se riam do evento em questão, tudo por ter apresentado um trabalho extenso e complexo no qual trabalhei dia & noite e por me ter recusado a mentir quando me pediram. A minha professora da altura ficou em estado choque, os colegas da altura aplaudiram a assaltante, e eu não me mexi um centímetro para devolver na mesma moeda o que me tinha sido dado sem eu pedir. Nunca recebi um pedido de desculpas e suspeito que a própria pessoa não se lembre sequer desse acontecimento; Isso só demonstra a falta de noção e mostrou-me a mim, bem cedo, o tipo de pessoas que me rodeavam naquela escola. Ao perceber que atitudes imorais eram aceitáveis aos olhos deles/delas, distanciei-me rapidamente dessa energia e ainda hoje continuaria sem me mexer um centímetro. Há quem chame a isso auto-controlo, eu chamo decência.
Aos 19 anos fui criticada por não obedecer ao estereótipo comum criado à volta do que é ser modelo. Recusava-me a sair com promotores nocturnos e não hesitava em dizer que “não” independentemente de quem estava a convidar-me e das tentações que me rodeavam, principalmente se estimulavam hábitos pouco saudáveis. Ainda hoje tomo a mesma atitude.
As más decisões e ações ficam com quem as entretém. Há situações que não merecem ocupar espaço na mente e não há nada que mereça cruzar a linha ética traçada por cada um de nós.
Actualmente atribuo grande parte do orgulho que sinto na minha pessoa ao facto de poder olhar para trás e ver que me mantenho fiel a quem sempre fui. E espero genuinamente que quem leia este capítulo consiga chegar à mesma conclusão sobre si mesmo ao fazer essa mesma reflexão. Porque se eu consigo, vocês também conseguem. Não sou especial nem melhor que ninguém em nenhum aspecto. No fundo, somos todos iguais e todos temos decisões a tomar. E não me tentem convencer de que não somos nós que as escolhemos. Se estás insatisfeito com as tuas, há uma solução à vista. Faz algo para mudar isso. Deixa os arrependimentos no passado e dá valor ao presente com um pé no teu futuro eu.◻️