Capítulo 4
[PT]
"A Bravura é um desporto em equipa" – 1ª Parte
◼️Tal como mencionei num post anterior, eu cresci em África. Na altura facilmente poderia ter nascido em Cabo Verde dado que o meu pai estava lá em trabalho, mas por diversas razões e por uma questão de timing acabei por nascer e ser natural de Lisboa. Porém, assim que fiz 3 meses e pude andar de avião, a minha família mudou-se para Cabo Verde para que pudéssemos estar juntos nos meus primeiros anos de vida. Legalmente os bebés recém-nascidos podem viajar a partir das duas semanas, mas é recomendado que se espere até cerca dos dois/três meses de idade. De qualquer das formas, este capítulo não é sobre essa ilha mas sim sobre outra parecida que está situada na linha do Equador.
Quando eu tinha 10 anos o meu pai foi colocado à frente da delegação de São Tomé e Príncipe. O que à partida parecia ser um contracto de dois anos, transformou-se em catorze a viver em continentes separados. Lembro-me perfeitamente da noite em que me foi comunicada a notícia na minha sala de estar e de analisar a expressão facial da minha mãe. Claramente não estava a ser uma notícia fácil de ouvir, e sabia algo que eu não tinha a capacidade de compreender, mas após eu ter tido uma conversa intimista com o meu pai, percebi que era o melhor rumo para os futuros planos traçados.
São Tomé é uma pequena ilha rodeada de natureza cujo clima pouco varia ao longo do ano, mantendo-se sempre no índice mais quente (que culpabilizo por não conseguir entrar na água do mar em Portugal desde então). As pessoas que lá moram partilham uma forma de estar de boa-fé, genuína e inocente, e gostam de ajudar o outro mesmo quando pouco têm para oferecer. Eis um exemplo claro de que no fim das contas é o pensamento que conta e não as posses materiais. Há pessoas que tive o prazer de conhecer e que estarei para sempre grata pelos nossos caminhos se terem cruzado, nem que não seja por terem estado lá para ajudar o meu pai quando eu estava impossibilitada de o fazer.
Parte da minha forma de estar sempre foi influenciada por ver a diferença que uma pequena atitude, palavra ou gesto pode ter no outro. Por essa razão, por vezes os meus amigos e/ou conhecidos achavam estranho eu oferecer oportunidades de mãos-largas sem pensar duas vezes ou querer algo em troca. Se sentia que havia necessidade de me explicar, fazia-o com o intuito de não ser mal interpretada, mas na grande maioria das vezes saía-me o tiro pela culatra. Ao saber que sou uma pessoa privilegiada e que podia dar acesso a outras realidades a quem não as iria ter de outra forma, sempre me fez acreditar que quando estamos nessa posição, deve ser visto como uma bênção e daí para a frente temos a responsabilidade de retribuir e partilhar. Contudo, é impossível ajudar quem não quer ser ajudado, logo escolher de forma sábia em quem investimos pode evitar partir corações.
Ao viver num país onde vender uma pulseira de madeira a 40 mil dobras em vez de 30 mil, pode ser o que proporciona ter dinheiro para dar de jantar à sua família ao fim do dia ou não (de notar que 100 mil dobras equivalem a cerca de 4€ / £3,30), ouvir uma colega de turma, em Portugal, proclamar a bom som e com orgulho que tinha comprado 2 a 3 telemóveis a mais porque sabia que ia perder o seu actual... foi deveras difícil de digerir. Isso reflectia directamente o valor que ela, e os seus pais, atribuíam ao dinheiro e não poderia ser mais errado ou ridículo a meu ver.
O lema da ilha "tudo é leve-leve" incentiva a viver de forma calma e sem grandes preocupações de modo a aproveitarmos o que temos e não o que poderíamos ter. É comum perguntar a alguém "Como estás?" ou "Tudo bem?" e a resposta ser "leve-leve", significando nem bem nem mal. Não há uma correria para atingir objectivos específicos sendo que a terra é fértil, a natureza acolhedora e o mar copioso. Planos são raros e a noção de seguir uma agenda é praticamente inexistente, pois a única coisa que importa é mostrar que o trabalho foi concluído. A dedicação cultural a uma crença superior funciona como meditação de grupo (tal como o canto) e as escolhas nutricionais são limitadas ao que é mais acessível: peixe de porte pequeno 'peixinho', banana-pão, matabala, carambola, mamão, feijão, milho e óleo de palma.
Eis o parágrafo onde me contrario e critico a minha querida sociedade moderna. Sou adepta de praticar e estudar o conceito de "mindfulness" - em Português creio que se diz "atenção plena" - e tento implementar algumas das suas lições de 'lifestyle' dado que reparo que vivemos num mundo que se move demasiado rápido para o nosso próprio bem. Mas, reparo também que esse movimento tem ganho tração ao tornar-se popular nas redes sociais nos últimos tempos, e transformou estrategicamente o que em tempos era uma abordagem holística, numa tendência para consumo. Aos meus olhos, é extremamente decepcionante que as vendas se tenham sobreposto à consciência de momento, pois apenas vivendo tal realidade é que conseguimos entender os principais componentes do termo em si.
Em São Tomé não há muito a fazer ou com que ocupar a mente. Talvez seja por isso que o lema "leve-leve" esteja presente em todas as gerações. Há dias em que o tempo passa à velocidade de uma preguiça a comer folhas de bananeira e os fins-de-semana conseguem ser particularmente penosos, especialmente para quem está habituado a uma rotina mais activa. Portanto, sinto-me no dever de deixar um "shoutout" ao meu pai por ter aguentado mais de uma década sozinho na ilha, e à minha mãe por ter remado o barco contra a maré em nome do amor e da compaixão.
Com uma distância de mais de 4500 quilómetros, a invenção do Skype permitiu que a comunicação online existisse diariamente e ajudasse a manter os laços familiares intactos. Olhando para trás, só foi possível porque todos estávamos a trabalhar em equipa e tínhamos um papel a cumprir. O meu pai tinha o objectivo de poder providenciar qualidade de vida a si e à sua família, a minha mãe tinha sido encarregue de lidar com a logística, o apoio emocional e de me criar em Portugal, e eu tinha o papel de provar que todo esse esforço colectivo era justificado ao manter boas notas na escola - que era a razão principal que me protegia de emigrar mais uma vez. A educação disponível no continente Africano está infelizmente ainda em atraso em algumas áreas comparando-a com a da Europa, e poderia ser uma desvantagem de acordo com a carreira que escolhesse no futuro, a não ser que fizéssemos esse sacrifício.
A vida não é um sprint; Do meu ponto de vista, é uma maratona de estafetas onde passamos o testemunho à pessoa que escolhemos e a dificuldade está em encontrar quem mostre ser de confiança e não receie tais responsabilidades. Não que não consigamos alcançar algo por nós mesmos, mas torna-se 5 mil vezes mais difícil, e no fim, assim que a descarga de adrenalina e dopamina passar, sentimo-nos vazios. A alegria em alcançar algo na vida não provém de chegar à meta final, mas sim da caminhada feita até ela e das pessoas com quem a fazemos.
Sempre que me vejo numa situação onde um pai se queixa que o seu filho/filha não ouve o que ele diz, questiono em primeiro lugar se o pai está consciente das suas ações. As crianças aprendem com os exemplos dos adultos, não com as suas palavras. Se os meus pais me tivessem comunicado a importância de tratar toda a gente com o mesmo nível de respeito, mas agissem de forma contrária à que tentavam transparecer verbalmente, é possível que eu hoje fosse uma pessoa com valores diferentes. Em São Tomé houve variadíssimas oportunidades para irem contra o que me queriam passar, ao invés, presenciei como eram bem-recebidos independentemente do país e cultura que estavam a viver ou que tinham vindo de, e atribuo isso ao facto de sempre terem tratado toda a gente de forma igual. "Não faças aos outros o que não gostas que te façam a ti" é a minha regra de ouro e tenho-os a eles para agradecer pelos ensinamentos.◻️