Capítulo 5
[PT]
"A Bravura é um desporto em equipa" – 2ª Parte
◼️Escrever um capítulo sobre São Tomé e Príncipe fez com que revisitasse fotografias e memórias desse período da minha vida, e comparando a ilha que eu tive o prazer de conhecer e amar – com a sua versão actual – noto que há uma disparidade na forma como as pessoas se comportaram antes de e após a chegada da tecnologia moderna.
Nos anos em que passei períodos alargados em São Tomé, tentei otimizar os meus dias de modo a tirar proveito desse tempo livre com actividades recreativas. Havia dias em que punha o despertador para as 6 da manhã para jogar ténis com um amigo de família num hotel perto de casa, antes de ser hora de ele ir trabalhar; Havia outros dias em que esse amigo me levava com ele para alto-mar onde aprendi a fazer mergulho, e havia alturas em que passava as tardes na régie da RTP a absorver técnicas de edição de vídeo com quem tinha paciência para me ensinar no Edius. Mas, principalmente, escolhi ocupar a minha mente a ensaiar acordes na guitarra que trouxe às costas e a dedicar-me à aprendizagem da língua japonesa (a começar por 平仮名 ‘Hiragana’ e frases básicas do dia-a-dia) de forma autodidata. O sinal de internet nunca foi forte o suficiente para utilizar da maneira a que estava habituada em Portugal, por isso o normal era demorar cerca de 30-40 minutos (com sorte) para carregar um vídeo de 5 minutos no Youtube, o que fez com que eu procurasse uma melhor solução para fazer download de séries, desenhos animados e anime ainda em terras lusitanas, usufruindo de internet rápida e 4G. Sem dúvida que a descoberta dos ‘torrents’ melhoraram e muito a minha vida em África.
Fazendo contas rápidas apercebo-me que passei mais de metade da minha vida a viver no estrangeiro, sendo que acabei de fazer 27 anos. Em criança pude ter a experiência de sentir o que era viver no continente africano, em adolescente pude partir numa aventura imersiva pelo continente europeu, americano e asiático, e como jovem adulta vivo actualmente em Inglaterra no pós-Brexit. Fica a faltar-me acrescentar a Oceânia para completar o meu puzzle e quem sabe se um dia não terei a oportunidade de passar mais do que uma semana na Nova Zelândia, sendo que foi um país onde senti que o modo de ser colectivo vai de encontro ao meu.
Por vezes há pessoas que nos auxiliam da maneira menos expectável. Ontem fui relembrada de que apesar dos bons nem sempre vencerem, devido ao facto de que fazer o correcto nem sempre é benéfico, ações consistentes que vêm do coração deixam uma marca impossível de esquecer. De certa forma, é verdade que “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura". E o mais interessante é que não precisa de ser verbal.
Na minha opinião, é substancialmente mais fácil alguém que não estava habituado a practicar más ações, fazê-lo. Do que alguém que sempre practicou más ações, deixar de o fazer. Em simultâneo, e acreditando que o ser humano tem uma natureza inerentemente “maliciosa”, guio-me pela premissa ‘bom até provar o contrário’. Presumo que neste caso possa ser interpretado como “inocente até ser culpado”. Não que haja um tribunal imaginário, mas a tendência para a persuasão rápida e pouco lógica que permite a contaminação obsoleta existir nos tempos de hoje, faz-me crer que são necessárias diretrizes comportamentais, que infelizmente não são ensinadas nem na escola nem em casa. Isto para dizer que o esforço necessário para alcançar tal mudança é, mais vezes do que não, grande demais para ser aliciante.
Não é por acaso que nos filmes de ação a personagem que representa um espírito generoso/altruísta é quem mais se sacrifica pelo bem mundial da espécie humana (e que frequentemente morre por uma causa maior). Sendo assim, questiono-vos porque é que devemos ser esse tipo de pessoa? Porque é que devemos escolher ser “bons” numa sociedade que é corrupta e naturalmente gananciosa?
Excelente questão.
Porque é que devemos escolher não fumar quando toda a gente à nossa volta o faz? Porque é que devemos cuidar da nossa saúde física e mental, mesmo quando é visto como sendo de alta-manutenção e pretensioso? Porque é que devemos priorizar o sono quando sair à noite com amigos é muito mais divertido? É precisamente o mesmo princípio. Já alguma vez pararam para pensar que fazer o correcto dá mais trabalho? Nunca disse que era fácil… E não acho que deva ser, caso contrário desvalorizamos o nosso comportamento.
O que faz uma diferença significativa é a noção de camaradagem. Pessoalmente pude experienciar os vários níveis de compreensão que países e culturas diversas têm sobre o sentido da palavra, e deixem-me que vos diga, que é por norma o factor decisivo que leva alguém a aguentar mais ou menos tempo num lugar desconhecido.
Esta semana e já por vários dias, tenho estado com uma sensação desconfortável de falta de força nos membros superiores e tentei de tudo para recuperar à velocidade da luz, pois vivo por minha conta e preciso de estar capaz de fazer as tarefas diárias. A minha família tem acompanhado ao longe e vivido a minha ansiedade e os meus amigos têm incessantemente dado o seu melhor para me fazerem companhia, apesar dos fusos horários divergirem.
Há laços de amizade que sobrevivem o passar do tempo, há laços familiares que têm uma perseverança eterna adjunta, e há conversas silenciosas a acontecer com quem partilhamos o nosso espaço pessoal. No meu condomínio vejo pessoas a carregar compras pesadas a toda a hora ou desorientadas e a precisar de ajuda, mas demasiado tímidas para o fazer. Tenho a certeza de que não sou a única a dar conta; Porém, pareço ser a única a fazer algo para tentar ajudar sem querer nada em troca. O que me deixa triste. Será porque o restante anda tão ocupado que nem pode libertar 5 minutos da sua agenda? Duvido. Perco 10 segundos a abrir as portas a um vizinho que está a carregar 20 litros de água por si só. É assim tão inimaginável? Só pode ser um puro desinteresse por alguém que não o próprio… eis a conclusão a que chego.
Ontem após vir directa de uma consulta no médico, dois moradores da mesma ala repararam que eu tinha uma tala no braço e a sua reação imediata foi de garantir que eu chegava bem a casa e desejaram-me uma rápida recuperação, apesar de nunca termos trocado palavras e do seu inglês não ser fluente. Eles quiseram mencionar que ao observarem as minhas atitudes ao longo do último ano e ao verem como não custa ajudar os outros, segurar uma porta, um elevador, desejar um bom dia, etc... fez com que eles refletissem sobre as suas próprias ações e quisessem ser melhores pessoas daí para a frente. Como não ficar sensibilizada ao ouvir tal partilha? 😊 Às vezes não nos apercebemos do impacto que temos nos outros, mas o ser humano não é cego. Desde que a disposição seja genuína, o efeito ressoa. A nossa interação pode ter sido momentânea e de passagem, mas originou um foco de atenção com energias renovadas e unicamente concentrado em voltar a estar a 100%.
O ser humano torna-se mais audaz quando sente que tem apoio; E apoia quem o faz sentir apreciado. “A felicidade e o bem-estar não são determinados pela ausência de problemas, mas sim pela capacidade para lidar e resolvê-los atempadamente”. -D◻️