Capítulo 7
[PT]
“Há amigos na vida, e amigos que ficam para a vida”
◼️O post desta semana é dedicado a uma pessoa.
A pessoa que eu cumprimentava logo pela manhã, apesar de ser através de uma moldura na minha secretária, e a actual vencedora da medalha Olímpica de ouro da modalidade ‘destinatário mais frequente das cartas escritas à mão pela MC’. Suspeito que a cara dela seja algo familiar, especialmente se me seguem nas redes sociais desde o início da minha carreira. Apresento-vos quem eu considerava ser a metade 陽 ‘yáng’ do meu 陰 ‘yīn’.
Por breves instantes, analisemos o que separa uma relação entre conhecidos de uma que vai para além do formal e cordial. Relações entre conhecidos são geralmente criadas com uma natureza de incidência, maioritariamente baseadas em momentos de conveniência ao invés de esforço deliberado. De acordo com a minha experiência: reciprocidade, comunicação honesta, aceitação & crescimento, lealdade, perdão, entre outras qualidades, são necessárias para que floresçam para além disso. E, desmentindo a crença geral, não estão dependentes de haver ou não comunicação diária. Desde que se garanta tempo de qualidade e se partilhem momentos significativos na vida de ambos, o laço permanece inquebrável.
Como já devem ter percebido, a minha vida sempre foi tudo menos sedentária. Essa realidade acarreta os seus altos e baixos, e apresenta as suas inconveniências, sendo a dificuldade em manter relações à distância o principal desafio. De acordo com Albert Einstein: “Um indivíduo pode fazer a diferença, mas uma equipa consegue fazer um milagre”.
E foi precisamente isso que nós ambicionámos em conjunto.
A grande maioria das pessoas dificilmente entenderá as implicações em ter alguém de quem gostamos e ansiamos pela sua companhia, ao longe, por questões que vão para além do controlo de cada um. Ter que, por um lado ouvir e por outro dizer, repetidamente: “Desculpa, não posso… estou a trabalhar”, “Desculpa, não posso… estou fora do país nessa data”, e/ou “Desculpa, não posso… mas vou tentar estar presente da próxima vez (se houver próxima vez)”, é susceptível de trazer desvantagens a longo prazo. Nos anos em que tive que gerir uma agenda inconsistente e com uma cadência imprevisível, conseguia visitar Portugal por cerca de 3 a 4 meses por ano (sendo esse um cenário extremamente optimista). Normalmente, uma pessoa no seu lugar procuraria seguir o seu rumo noutra direcção, em troca de lutar para que as reuniões esporádicas e as memórias penumbrosas se mantivessem acesas. Mas ela quebrou esse meu preconceito durante algum tempo, provando que a citação “a relva não é mais verde do outro lado, é mais verde onde escolhes regar” estava certa. Desistir e procurar outra pessoa que preenchesse o vazio deixado pela anterior seria a escolha mais fácil, mas se há algo que o meu tempo com ela me ensinou é que ‘as escolhas mais difíceis são as que mais valem a pena tomar’.
Nas suas próprias palavras: “nada, mas mesmo nada, seja a distância, seja o tempo, seja o trabalho, nos faz sentir distantes uma da outra, porque quando nos revemos é como se não tivesse passado tempo nenhum”.
Passar longos anos na companhia de alguém não é o que resulta em conexão e passo a explicar porquê. Na minha opinião, há uma razão pela qual relações tanto de amizade como amorosas não perduram, apesar de existir ‘rapport’. É preciso algo muito específico de ambas as partes - proteger contra e reparar - a desconexão. Muito que se lute contra é inevitável que aconteça, por isso todas as relações acabam por ter que a enfrentar mais cedo ou mais tarde, se bem que muita gente opta por fingir que não é real. Eu não acho que seja a distância que crie desilusões e ressentimentos, mas sim expectativas desalinhadas. Acredito que esse é o grande porquê.
A pessoa que sou hoje só existe porque o meu caminho se cruzou com o dela e ela introduziu-me à noção de pura aceitação e conforto aos 15 anos. Só conseguia ter um espírito aventureiro para além de um certo limite, porque sabia que ela estava lá para me socorrer se corresse mal. Ninguém vive isento de ter imperfeições e bagagem emocional, mas nem toda a gente precisa de conhecer o nosso passado para nos acolher no presente.
'Para fazer a diferença, não é preciso ser-se perfeito, só é preciso mostrar preocupação genuína.'
Sentir que somos a primeira escolha de alguém é difícil de expressar por palavras. É especial, raro e inefável. E foi precisamente esse sentimento que me permitiu ser menos “robótica”, e mais ligada às minhas emoções por vários anos.
Antes de a conhecer, a apatia tinha sido o meu mecanismo de defesa. ‘Se não sentir nada, ninguém me pode magoar’. E sei que era um pensamento perigoso, mas conhecê-la mudou a minha forma de ser. De repente, já não me sentia envergonhada por rir em voz alta, por chorar na presença de alguém, por “obcecar” com certos jogos de vídeo, séries de televisão, música, ou por ter gostos pouco comuns; Nada com ela era forçado e achei que tinha encontrado alguém que me inspiraria a atingir os meus objectivos e sonhos mais .
Mencionei há uns parágrafos que o não estar presente pode tornar-se um desafio maior que o idealizado, mas por vezes, pode ser o teste necessário para catapultar a amizade para o nível acima!
Eu não tive escolha, mas ela escolheu estar presente em cada aniversário, cada passeio à beira-rio, cada encontro matinal, e perante uma situação de crise, ao ponto de me sentir ligeiramente culpada – pois sei que o equilíbrio entre independência e conexão é delicado e arriscado de navegar. Apesar disso, com intencionalidade mútua em querer estar na mesma página, até os desacordos ocasionais são vistos como oportunidades para fortalecer uma amizade.
Eu escrevia-lhe cartas à mão uma a duas vezes por ano e ela colecionava-as todas num dossiê (se não estou em erro). Cartas escritas a partir de Itália, de Inglaterra, do Japão… daqui a uns anos iríamos poder olhar para trás e reviver de uma forma palpável o quanto a nossa conexão tinha evoluído com o tempo, o que aprecio pela sua beleza.
Porém, a vida pode mostrar-se mais imprevisível do que o antecipado. Os nossos caminhos divergiram e foi aí que abri os olhos para a real importância de garantir que nos rodeamos de pessoas que não só partilham os mesmos valores, como não têm medo de serem os únicos no meio da multidão a defender-nos na nossa ausência e presença. Quem é amigo de toda a gente, é amigo de ninguém; A minha mãe sempre me disse: "Nas costas dos outros vemos as nossas."
Independentemente, irei para sempre guardar essas memórias com bons sentimentos e agradeço-lhe por me ter ajudado a encontrar um sentido num mundo teoricamente irrisório, quando mais precisei. -K◻️