Capítulo 8

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Capítulo 8
Por Kasia Gromala

[PT]

“Os mais silenciosos têm as mentes mais barulhentas” – 1ª Parte

◼️Comecei este projecto há pouco mais de 2 meses e desde que nos conhecemos tenho a agradecer a partilha das mais diversas histórias que tive o prazer de ouvir ou ler, pois faz-me sentir como se esta plataforma tivesse criado um ambiente confortável para que quem não estivesse habituado a ser ouvido, agora o pudesse fazer.

Como introvertida que sou, tenho consciência de que alguns de vocês não se gostam de expôr e do desafio que enfrentam para escrever um único parágrafo de agradecimento. Entre as trocas de palavras mais recentes há uma que me ficou na memória com um particular destaque, onde alguém expressou a sua vontade de querer ser mais aventureiro e corajoso além-fronteiras, mas sabia que a sua timidez o impedia de chegar ao seu máximo potencial em termos profissionais.

Essa conversa trouxe-me ao tópico desta semana 💡

Eu sou introvertida.

Porém, por ser introvertida não quer necessariamente dizer que sou tímida.

Na realidade, longe disso.

Ser introvertida apenas significa que prefiro a minha paz, sossego e companhia própria, ao invés de planos de cariz social dois terços do tempo. A solidão é uma amiga inseparável da criatividade, pois as pessoas mais criativas precisam de ter espaço e tempo para criar o seu próximo plano, ideia ou produção, sem intervenções externas. Ao mesmo tempo, e rodeada das pessoas certas, não deixo de sair, de me divertir com amigos e de procurar aprender coisas novas que só posso aprender ao experienciar.

De um modo geral, os introvertidos tendem a falar menos e a ouvir mais. O mais irónico e a razão principal que me levou a trazer-vos este tópico esta semana, é que a sociedade onde estamos inseridos tem um claro pré-julgamento formado sobre o que é a introversão… especialmente no mercado de trabalho.

De acordo com o cenário de negócios e o ritmo acelerado em que vivemos, ser introvertido é visto veementemente como sendo uma característica negativa e que deve ser mudada à força. Só que quem pensa dessa forma esquece-se que são precisamente os mais introvertidos que contribuem com ‘insights’ valiosas e inesperadas, pois tiram tempo para pensar de forma extensiva sobre as diferentes perspectivas que afetam o negócio, e que grande parte dos empregadores beneficiam com. É importante que se dê o espaço necessário para que eles sintam alguma liberdade de pensamento, e não aplicar um julgamento imediato baseado única e meramente sobre o facto de serem pessoas menos estrondosas.

Cada um tem a sua forma de expressão. Uns são capazes de organizar os seus pensamentos em meio segundo, outros precisam de mais algum tempo para o fazer de forma cuidadosa, e não deveria haver problema algum desde que o trabalho aparecesse feito dentro da ‘deadline’ estipulada. Já presenciei em inúmeras ocasiões que quem é mais impulsivo, comete os maiores erros. Sendo assim, qual a necessidade de impôr estas mudanças comportamentais quando não é assim tão vantajoso a longo prazo?

‘A curiosidade matou o gato’ é um ditado popular que adoro, mas abomino.

Ser curioso é um termo volátil e que varia entre “intelectualmente curioso” a “curioso por diversão”, entre outros. No meu caso, categorizo-me como sendo naturalmente curiosa por saber mais, aprender mais e procurar nova informação, de modo a encontrar soluções para os desafios que me vão surgindo pelo caminho. Porém, não estou nem nunca estive interessada em saber mais sobre o que os outros andam a fazer. Mas sim, por sua vez, no que o mundo tem para oferecer.

Quem me conhece a um nível pessoal descreve-me frequentemente como sendo alguém que irradia uma certa “calma e tranquilidade” no seu todo. E se bem que não é uma percepção errada na camada de expressão mais visível, internamente a minha mente corre em todas as direções. Consigo ficar um dia sem proferir uma única palavra, mas no meu interior há um turbilhão de pensamentos desconectados a brincar e a atravessar o domínio imaginário e o realista com um pé em cada lado. Acima de tudo sei que sei a diferença entre os dois, por isso deixo-os serem livres, o que alimenta o processo criativo. Desde tentar perceber a razão que leva o nosso planeta a ser o único com vida confirmada, a “desempacotar” o que são eventos coincidentes e os fenómenos que ocorrem quando um sonha acordado. Posso dizer-vos com teimosia que não acredito em coincidências; Todavia, acredito que tudo acontece por uma razão.

No ensaio final do Steve Jobs ele mencionou que “os seis médicos aos quais devemos prestar a devida atenção são a luz solar, o descanso, o exercício físico, a dieta, a auto-confiança e os amigos”. Ele acreditava que para se ter uma vida longa e saudável, era imperativo que os 6 estivessem presentes de uma maneira ou de outra, e eu partilho da mesma opinião.

Regularmente deparo-me em situações onde tenho que priorizar o meu descanso e isolamento social, e regularmente recebo a mesma reação: “Precisas de descansar? És jovem, estás cansada porquê se ainda não fizeste o suficiente”. Ora, é verdade que o ‘descanso’ em si é uma palavra com um significado abrangente desde falta de actividade a falta de responsabilidade, mas não acho que deva ser menorizado ou desprezado, dado que a definição de ‘idade’ é uma percepção relativa.

Pessoalmente, a natureza age como um conforto espiritual. O som dos pássaros a cantar de fundo, a água a cair no lago, e o momento em que uma borboleta pousa no joelho e decide dizer “olá”, vai para além de insubstituível. De cada vez que me sinto mais assoberbada, gosto de dar um passeio sem uma rota a seguir e respirar ar puro directamente da sua fonte, transformando uma outrora atmosfera sombria num habitat colorido.

Em 2019, viver no meio da natureza tornou-se uma grande parte da minha jornada de crescimento e, de certa forma, agiu como um plano de escape. Os meus amigos sabem que de x em x tempo desapareço por uns dias porque vou à procura de um sítio mais remoto onde a internet é má ou limitada. Normalmente, esse sítio remoto fica no meio do nada onde só mesmo a natureza, o sol (se decidir brindar-nos com a sua presença), comida simples sem grandes listas de ingredientes – evitando tudo o que resultasse no desconhecimento de metade deles se questionasse a minha avó – e almas não contaminadas.

Isso não quer dizer que sou fundamentalista. Aliás, na minha opinião, todos os ideais extremistas como o radicalismo ou o fanatismo não têm lugar no mundo moderno, pois não trazem nada de bom. Ver o mundo apenas a branco & preto quando há um espectro variado de tons de cinzento pelo meio é triste… Mas quem sou eu para julgar?

Há uma conclusão a que chego, no entanto, que é o facto da sensação de liberdade ser criada por pensamentos retóricos; da mesma forma que os políticos usam discursos retóricos, os vendedores usam imagens retóricas e slogans cativantes, e os advogados usam o poder da argumentação.

Espaços verdes trazem-me uma sensação de liberdade e que perdura enquanto estou a passear ou sentada a olhar para o que rodeia. Acredito que para alguns isso passe a imagem de que sou indiferente por estar num encontro apenas com o mundo e eu. Dado isso, questiono porque é que quem tem uma necessidade inata e normal de ter o seu espaço pessoal delimitado é visto como indiferente? Não se trata de ser distante, reservado ou anti-social; Trata-se de valorizar qualidade e não quantidade, e isso aplica-se a todos os aspectos da vida.◻️