Capítulo 9

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Capítulo 9
Por João Bettencourt Bacelar

[PT]

“Os mais silenciosos têm as mentes mais barulhentas” – 2ª Parte

◼️A liberdade é difícil de definir. Porém, nunca seremos livres se continuarmos a usar uma máscara social, sendo que a vida só melhora se nós melhorarmos em primeiro lugar.

Vivemos numa geração triste com fotografias sorridentes. A inocência de um sorriso genuíno desaparece para dar lugar a um avatar online criado meticulosamente com um propósito. Dada esta realidade, como é que podemos esperar estabilidade na saúde mental dos jovens hoje em dia?

O foco actual gera à volta do número de gostos/comentários/partilhas e interação nas redes sociais, esquecendo ou apagando da memória o que cada um já assegurou na vida real. Os smartphones vieram exacerbar o problema ao agravar a disparidade de rendimentos e ao permitir que o egoísmo levasse a conexão cara-a-cara à beira da auto-destruição. Tudo com a finalidade de monetizar a expressão pessoal por todas as vias e o mais rapidamente possível.

Se partilhar convosco o número de vezes que já fui abordada e questionada sobre ‘onde está o formato empresarial do meu blog’, ou as MP’s que recebo a tentarem convencer-me a gastar dinheiro a comprar seguidores e promoções nas várias plataformas (ou powerpoints de esquemas de pirâmide), traz-me um desgosto enorme. Se eu tivesse criado o meu projecto com intenções de fazer dinheiro com ele, posso garantir-vos que a abordagem seria bem menos pessoal.

Sobretudo, isto demonstra uma grave escassez de 눈치 'nunchi' 👁️

눈 ‘Nun’ = olho, 치 ‘chi’ = poder/força; resultando assim no ‘poder ocular’.

Na cultura ocidental o nunchi é descrito como sendo uma parte da 'EQ' ou inteligência emocional, enquanto que na cultura oriental é um conceito coreano que vai muito para além disso: trata-se da arte subtil e da capacidade de ouvir e avaliar o humor dos outros sem ser preciso interação verbal para tal, a importância do enquadramento e do contexto das situações, e a habilidade de ler a sala. Quem está familiarizado com o termo sabe que nem sempre é necessário entrar na sala para prever o desenlace, pois desperta-se uma intuição que permite construir um puzzle mental usando as deixas perceptivas para formar o todo.

O nunchi lê a sala como uma entidade colectiva e não individual, garantindo que nos retiramos da equação – precisamente onde a maioria enfrenta dificuldades. Ao nos retirarmos da situação e ao passarmos a ver o lado objectivo perante o que realmente está a acontecer em frente aos nossos olhos, somos empurrados a penetrar a fachada falsamente amigável criada por nós próprios.

‘O conhecimento decide o que dizer;

A perícia decide como dizer;

A atitude decide quanto dizer;

E a sabedoria decide se devemos dizer ou não’.

A habilidade de parar, avaliar os nossos arredores e respirar fundo antes de dizer imediatamente o que nos vem à cabeça, é rara. O nunchi ajuda-nos a perceber o quanto as palavras devem ser usadas frugalmente e como encontrar o timing certo é uma arte que poucos dominam.

O poder da observação é algo que sempre me interessou, pois acredito que a atribuição da importância de estarmos alerta perante os perigosos iminentes que nos rodeiam, é meio caminho andado para os evitarmos. Em pequena, um tio próximo atribuiu-me a alcunha de “o farol” por estar sempre na mesa dos adultos, se bem que calada, entretida com os meus brinquedos, mas totalmente atenta ao que se passava à minha volta. Os meus olhos claros captavam quem entrava e quem saía da divisão, quem estava triste, contente ou frustrado e porquê; Não havia um movimento ou uma palavra que me escapasse aos olhos ou aos ouvidos, respectivamente.

No momento presente, a jovem adulta que sou consegue na maior parte das vezes assimilar se o que estou a dizer está a ser escutado pelo outro ou não. Escutar não é sinónimo de ouvir; Escutar deve sempre ter o intuito de prestar atenção com vontade.

Deparo-me frequentemente com situações onde a pessoa ainda não terminou de narrar os seus pensamentos até ao fim, e o outro já está a formular na sua mente a frase que irá usar como resposta (geralmente em simultâneo) --> o que reduz severamente a qualidade da interação. Num cenário como este, não devemos esquecer-nos de que a pessoa poderá não conhecer melhor e felizmente estas mudanças comportamentais podem ser adoptadas… mas será essa uma interação agradável --> nem por isso.

À minha volta vejo pessoas a cometer os erros mais atrozes, única e simplesmente porque não pararam para observar devidamente e analisar a sala onde se encontravam inseridos.

Não se perde assim tanto tempo a fazer um esforço para compreender o porquê por detrás do quê. Consigo olhar a minha melhor amiga nos olhos e perceber imediatamente se ela quer ir para casa após um evento ou uma festa. Ela não precisa de me dizer que está cansada ou que a bateria social chegou ao modo de ‘poupança de energia’. Também não precisa de ser externamente expressiva, e o mesmo se aplica ao meu pai e amigos de longa data. O rastro do cheiro no ar é suficiente para me dar a informação que preciso para ler a sala e às vezes até ler as entrelinhas.

Esta habilidade não é supernatural ou telepática. É formada com base em experiência e numa ânsia de querer ser alguém capaz de comunicar agradavelmente com as mais diversas pessoas e culturas, daí o meu desejo em aprender e falar fluentemente o máximo de idiomas que me for possível nesta vida.

‘O silêncio não é o vazio, é a abundância’. Se és um observador passivo, apenas absorves os sons e as vistas em redor. Se és alguém que presta atenção com mais cuidado, e deixas o telemóvel no bolso quando sais de casa, começas a notar os pequenos detalhes que outros negligenciam. A segunda opção só é passível de ser realizada se a pessoa estiver em sintonia consigo mesma, em sintonia com o mundo, e nunca dependente de um dispositivo electrónico para o guiar numa direcção.

Simpatizo com quem opta por julgar o nunchi como algo “ameaçador”. Baixos níveis de nunchi estão presentes quando alguém parte rapidamente para o julgamento do outro, sem saber minimamente o que levou a pessoa a ter uma certa reação, ou quando somos convidados a ir a casa de alguém e a pessoa é avisada ao fim do dia que “por muito que o anfitrião quisesse que ficasse para jantar, não tem carne suficiente para 3 pessoas” e a resposta ser “não há problema, sou vegetariana” ou “manda-se vir uma pizza”. Nessa situação em específico, o anfitrião está a tentar informar de maneira delicada que chegou a hora da pessoa ir para a sua residência sem ser mal visto; não procura uma solução.

O exemplo mais recente que me surge na memória foi quando alguém me dizia que aos seus olhos “eu dava a minha opinião e agia de um ponto de vista superior como se me sentasse num pedestal”, o que não podia estar mais longe da verdade. Após reunir variadas opiniões apercebi-me que a única pessoa que se sentia de tal forma, era precisamente quem tinha comentado uma afirmação tão descomunal. Essa afirmação acabava por reflectir uma coisa de maneira clara: a insegurança da própria e a incapacidade de ler a sala correctamente.

O silêncio tem um poder invisível e a grande maioria acredita que é usado de forma calculada, por muitos se sentirem desconfortáveis com momentos sem ruídos nem palavras. O silêncio permite que o cérebro organize os pensamentos e os sentimentos de um modo caso contrário inacessível.

Os introvertidos vivem mais confortáveis com o silêncio do que os extrovertidos. Isso é um facto. Por vezes, perguntam-me se estou chateada ou irritada baseando-se no acto de concluir as minhas tarefas diárias sem alarido. Estou aqui para vos dizer, queridos leitores, que o som não tem qualquer grau de parentesco com o "mood" de alguém.

A falta de nunchi provoca gaffes não intencionais que por vezes são hilariantes, mas o que está em jogo é mais sério - e deliberado ou não - deixa uma marca na reputação.

Tudo flui num fluxo contínuo. A sala que entrámos há 10 minutos, não é a mesma em que nos encontramos agora. O capítulo que começaram a ler há 5 minutos também está em constante evolução, apesar de estático. O nunchi processa dados de forma ágil, tal como a perspicácia. ‘O mais forte não é quem alcança a sua melhor forma, é quem se sabe adaptar’.

Assim, a vida real fora do aparelho retangular 3D não tem obrigatoriamente que ser uma combinação de males entendidos confusos. Tudo o que precisam são os vossos olhos e ouvidos, juntamente com uma mente flexível, e uma vontade de querer dar alguma atenção extra aos pontos de referência que eles providenciam, mesmo que isso implique terem que suportar a ansiedade do silêncio.

Tentem lembrar-se disto: ‘A não ser que sejam pessoas caladas por medo. As pessoas são caladas por escolha’.

Eu sou uma pessoa calada por escolha. E vocês? 🙂◻️